Boémia

A noite em Portugal: bares, horários e cultura de rua

A noite portuguesa não se explica por uma lista de bares. Explica-se por um horário estranho, por copos bebidos de pé na rua e por uma tolerância rara ao barulho e à conversa. Quem chega de fora costuma perceber isto na segunda noite, nunca na primeira.

Copo com gelo e lima ao balcão de um bar, com luzes de néon desfocadas ao fundo
O primeiro copo raramente é o mais importante. É o que dá tempo aos outros de chegarem.

Há um erro clássico de quem visita Portugal pela primeira vez: aparecer num bar às nove da noite e encontrá-lo vazio. Não está fechado nem é mau, está simplesmente à espera. Aqui a noite começa quando noutros países já está a acabar, e essa diferença de duas ou três horas muda tudo o resto, do jantar à última chamada.

O horário, a coisa mais difícil de explicar

Jantar às sete é coisa de turista ou de quem tem de acordar cedo. O jantar normal começa às oito e meia e arrasta-se, com café, aguardente e conversa, até às dez e meia. Só depois se sai. Os bares enchem entre as onze e a meia-noite, as pistas de dança só ganham gente à uma e meia ou duas, e quem chega a uma discoteca à meia-noite vai dançar sozinho durante uma hora. Ao fim de semana, os bares fecham entre as duas e as quatro, dependendo do município e da rua, e as discotecas seguem até às seis. O pequeno-almoço a seguir à noite é uma instituição a sério: uma bifana ou um caldo verde às cinco da manhã fazem parte do programa, não são um acidente.

Beber na rua, o traço mais português

A cena que mais surpreende quem vem de fora não acontece dentro dos bares. Acontece à porta. No Bairro Alto, em Lisboa, ou nas Galerias de Paris, no Porto, os bares são minúsculos, com espaço para vinte pessoas, e as outras duzentas ficam na rua com o copo na mão. Compra-se ao balcão, sai-se, fica-se a falar encostado a uma parede, e às tantas a rua inteira é o bar. Isto tem consequências práticas: circula-se muito, entra-se e sai-se de conversas, e a noite é mais social e menos sentada do que na maioria da Europa. Também tem regras não escritas. O copo de plástico é para levar para fora, o de vidro fica dentro, e a partir de certa hora os moradores agradecem que se baixe a voz, porque em cima de cada bar mora alguém.

Lisboa não tem uma noite, tem várias

A capital divide-se por temperamentos. O Bairro Alto é o mais antigo e o mais democrático, ruas estreitas onde cabem estudantes, turistas e gente de cinquenta anos na mesma esquina. O Cais do Sodré, que era zona de marinheiros e bordéis, foi reconvertido e é hoje a rua da noite mais concentrada da cidade, com casas que abrem tarde e fecham tardíssimo. O Príncipe Real puxa para um público mais velho e mais elegante, com cocktails a sério e esplanadas de jardim. Alfama guarda o fado, a parte da noite que se ouve sentado e em silêncio. E as docas e o cais, junto ao rio, ficam com o que sobra: clubes grandes, sem alma nenhuma, mas com pista até de manhã.

Porto, a noite mais compacta do país

No Porto anda-se tudo a pé, e isso muda a noite. Um triângulo pequeno, entre a Rua Cândido dos Reis, as Galerias de Paris e a Rua da Galeria de Paris, concentra dezenas de casas coladas umas às outras: uma com jazz na cave, outra com música brasileira, outra que é uma velha loja de tecidos com o balcão original. A dez minutos, a zona dos Aliados e a Rua das Flores dão bares mais calmos, e Miguel Bombarda junta a noite às galerias de arte. É uma cidade em que se pode começar num vinho do Porto branco com tónico às nove e acabar às cinco sem nunca apanhar um táxi.

As cidades de estudantes jogam noutro campeonato

Coimbra, Braga, Aveiro, Vila Real e Covilhã têm um calendário próprio, ditado pela universidade. De outubro a junho, com pausas nas férias e uma explosão na semana académica, a noite é barata, cheia e feita de repúblicas, praxe, tunas e cervejas a preços que na capital já não existem. Fora do período letivo, as mesmas ruas ficam vazias e a cidade parece outra. Quem visita Braga em agosto e volta em novembro tem dificuldade em acreditar que é o mesmo sítio. Vale sempre a pena perguntar a um local se a semana é de aulas ou de exames, porque isso prevê melhor o ambiente do que qualquer guia.

O que se bebe, ao balcão

A cerveja pede-se pelo tamanho e o nome muda com a latitude: no norte é um fino, em Lisboa e no sul é uma imperial, e é sempre de pressão, pequena e gelada. O vinho a copo melhorou muito na última década e há hoje bares de vinho sérios em quase todas as cidades, com regiões a copo e petiscos para acompanhar. O gin teve o seu momento de moda e ficou, servido em copo de balão com demasiada decoração. E o final da noite pertence a duas coisas: a aguardente ou a licor beirão, e a um copo de água que ninguém pede mas de que toda a gente precisa.

A regra não escrita

A noite portuguesa é informal e pouco violenta. Não há códigos de vestuário fora de meia dúzia de clubes, os porteiros são mais razoáveis do que noutros países e é normal falar com desconhecidos numa fila ou à porta de um bar. Em troca, espera-se moderação: bebe-se durante horas, mas embebedar-se cedo e ruidosamente é visto como falta de traquejo, não como diversão. Quem percebe isto adapta-se depressa. Come-se bem antes de sair, bebe-se devagar, anda-se de rua em rua e aceita-se que a melhor parte da noite quase sempre acontece depois da hora a que se planeou ir para casa.

Perguntas frequentes

A que horas começa mesmo a noite em Portugal?

Os bares enchem entre as onze e a meia-noite e as pistas só ganham gente à uma e meia. Chegar às nove é chegar cedo demais, e a maior parte dos sítios fecha entre as duas e as seis, conforme a cidade e o dia.

É permitido beber na rua?

Sim, em copo de plástico e nas zonas de bares é a norma, sobretudo no Bairro Alto e nas Galerias do Porto. Alguns municípios limitam horários e zonas, e a partir de certa hora pede-se contenção com o barulho por causa dos moradores.

Preciso de reservar ou de me vestir de alguma maneira?

Na quase totalidade dos bares não. Só um punhado de clubes e casas de cocktails tem porta seletiva ou mesas reservadas. Fora disso, a noite portuguesa é informal e entra-se e sai-se sem marcação.