Boémia

Vila Real, a noite académica de Trás-os-Montes

Vila Real tem pouco mais de cinquenta mil habitantes e uma universidade que traz milhares de alunos de fora. A conta é simples e explica tudo: em período de aulas, a cidade é jovem e a noite é longa; em agosto, é uma vila calma no cimo de um vale.

Público em frente a um palco pequeno, com luzes coloridas, num concerto noturno
Nas cidades universitárias, o palco ao ar livre é o centro da noite durante uma semana inteira por ano.

Chega-se a Vila Real quase sempre de passagem, a caminho do Douro ou do Alvão, e é por isso que tanta gente nunca a viu à noite. A cidade está pendurada sobre a garganta do rio Corgo, com o granito à vista e uma avenida central que é o seu palco: a Avenida Carvalho Araújo, larga, com a câmara ao fundo e esplanadas dos dois lados. Quem passa aí um fim de tarde de outubro percebe logo o que a cidade é, porque está lá toda.

A universidade manda no calendário

A UTAD fica num campus grande à saída da cidade, tão arborizado que funciona também como jardim botânico e é dos poucos campus portugueses que se visitam por gosto. É de lá que vem a energia da noite. Os estudantes moram na cidade, comem na cidade e enchem as ruas do centro a partir de outubro. A noite forte é a quinta-feira, herança comum a todas as cidades académicas do país, e as sextas esvaziam-se porque muita gente vai a casa ao fim de semana. Em maio, a semana académica ocupa a cidade com palcos, cortejo e uma multidão vinda de outras universidades do norte.

Onde se sai, e como se sai

A noite faz-se em dois tempos. Primeiro, esplanadas e cervejarias na avenida e nas ruas em volta, até por volta das onze. Depois, os bares mais pequenos das travessas do centro histórico, onde se bebe de pé e se sai à porta como no Porto, à escala de uma cidade que se atravessa a pé em vinte minutos. As casas com música até tarde são poucas, meia dúzia, e toda a gente sabe quais são; o resultado é uma noite mais concentrada e menos anónima do que numa cidade grande. Ao balcão, além da cerveja, vale sempre a pena pedir um copo de tinto do Douro, porque aqui até o vinho da casa vem de uma das melhores regiões do mundo.

Chegar de fora, sozinho

Vila Real recebe muita gente que fica pouco tempo: estudantes no primeiro ano, professores convidados, técnicos em obra nas barragens e nas quintas do Douro. É uma cidade onde é fácil comer bem sozinho e mais difícil conhecer alguém, porque os grupos já vêm formados da faculdade ou do trabalho. Também aqui a procura de companhia se organizou fora dos classificados antigos, em plataformas que verificam cada perfil antes de o publicar, como as páginas de acompanhantes em Vila Real, com a garantia simples de que a fotografia corresponde a quem aparece. Numa cidade pequena, essa confirmação vale ainda mais do que numa capital.

Para quem nunca o fez e prefere ir informado, este guia sobre o que saber antes de marcar um encontro destes, escrito a pensar noutra cidade de província mas válido em qualquer uma, explica as regras básicas e o que deve levantar suspeitas num anúncio. Poupa tempo e evita os enganos mais comuns.

O inverno é um assunto sério

Há um dito antigo em Trás-os-Montes sobre nove meses de inverno e três de inferno, e não é só graça. Vila Real está a quase quinhentos metros de altitude e o frio entre novembro e março é real, com geada e vento que atravessa a avenida. Isso muda a noite: em vez de esplanadas, procuram-se tascas pequenas e bares com aquecimento, bebe-se mais tinto e menos cerveja, e come-se antes de sair, quase sempre alheira, posta à mirandesa ou algo de fumeiro. Depois, para adoçar, pedem-se pitos de Santa Luzia, o doce da terra, de massa folhada com recheio de abóbora.

E o dia seguinte, se sobrar tempo

A vantagem de acordar em Vila Real é o que está à volta. A Casa de Mateus, o palácio barroco cuja fachada aparece no rótulo do vinho mais exportado de Portugal, fica a cinco minutos do centro e os seus jardins resolvem uma manhã inteira. Meia hora para sul começam os socalcos do Douro, e a norte o parque natural do Alvão guarda a cascata das Fisgas de Ermelo. Poucas cidades deste tamanho oferecem uma noite assim e uma manhã assim tão perto uma da outra.

Perguntas frequentes

Vale a pena ir a Vila Real fora do período de aulas?

Para a natureza e para o Douro, sim, o ano inteiro. Para a noite, não: entre julho e setembro a cidade fica muito calma, com metade dos bares fechados ou vazios.

Quando é a semana académica de Vila Real?

Costuma acontecer em maio, organizada pelos estudantes da UTAD, com palcos ao ar livre e uma semana inteira de programa. É o período mais concorrido do ano na cidade e a altura em que o alojamento esgota.